CULTIVANDO SONHOS

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Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil
Às vezes lamento ser sentimental e em tudo ver além do que os outros vêem. E sentir intensamente cada emoção e vibrar a cada canto, seja ele doce como o néctar das flores ou amargo como o fel das dores dessa vida... Como o tinir de taças de cristal, brindo o sentimento e em devaneios tantos minha alma viaja, transcendente, percorrendo mundos, atravessando mares, ou livremente, pondo-se a voar. Entre o imaginário e a realidade, interpõe-se minha poesia, que suga o néctar e expele o fel. Às vezes lamento esse meu jeito infante de acreditar em fadas, magos e duendes e, com eles, de mãos dadas pelos bosques,penetrar num universo de magia... ... E a poesia – esse estado de enlevo – toma a forma das minhas fantasias num romantismo real de alguém que sonha. Secretamente, em meu jardim de encantos, onde a terra é fértil, é fecunda, desdobram-se e viçam as flores que eu planto, na plenitude de todo amor que vivo. E, se algum dia, alguém nele penetrar há de notar que em cada canto existem pedaços de cada sonho que cultivo... (Leuri Lyra)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010



GOTA D’ÁGUA
 
       Quando Frederic se mudou para aquela casa em Maiorca, tinha a intenção de descansar e buscar inspiração. E isso aconteceu até a primeira chuva.
 
       Ele acordou, no meio da madrugada, com um som vindo da sala. Era um som repetitivo, cadenciado, ora um pouco mais forte, ora um pouco mais fraco, que, a princípio, variava em duas ou três notas.
 
       Devido ao seu frágil estado de saúde, levantou-se com dificuldade. Fazia muito frio e, num sacrifício, se encaminhou até a sala e constatou que o som vinha do teto ao chão: era uma goteira.
 
       A princípio ficou irritado. Como poderia dormir com aquele barulhinho irritante? E, se não dormisse, como poderia ter forças para compor? Seu estado de saúde pedia sossego, já que em muitas madrugadas a tosse o sacudia e o ar lhe faltava.
 
       Precisava pôr fim àquele ruído se quisesse terminar mais um de seus prelúdios, porque agora a chuva aumentara de intensidade e o barulho se tornara insuportável.
 
       Precisava mandar consertar o telhado, porque a umidade lhe era extremamente prejudicial. Além do que, quem conseguiria compor com tremendo barulho?
 
       Colocou uma bacia debaixo da goteira, mas o som ficou ainda mais alto. Decidiu apanhar um pano qualquer para colocar na bacia, a fim de amortecer o ruído das inúmeras gotas d’água que, como cascata, caíam sobre ela, formando uma estranha...
MÚSICA?!!

 
       Parou no meio da sala. Aquele som já não lhe soava tão desagradável. Sentou-se ao piano. Semitonado lá... lá bemol, variando para si... si bemol, semitonado também, terminando em ré... ré bemol, e maior, porque a chuva não se lamentava. Cantava. Que melodia aquelas gotas d’água estavam tocando na bacia no meio da sala... Era repetitiva? Mas... que melodia! Como a natureza tem ritmo! Ele podia contar o tempo entre uma gota e outra... quatro tempos, seria a música da chuva... um quaternário!
 
       Em sua genialidade musical, Frederic pôde ouvir por inteiro as notas da “música da chuva”.
 
       Quando o dia amanheceu, na pauta musical do papel almaço, estava pronto o PRELÚDIO EM RÉ BEMOL MAIOR, o PRELÚDIO GOTA D’ÁGUA, de Frederic François Chopin (de parceria com a natureza, é lógico!)


(Leuri Lyra)


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